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Brexit: Para lá do nevoeiro, qual é o futuro para o retalho?

Por a 4 de Agosto de 2016 as 18:46
Sergio pereira compara ja

Por Sérgio Pereira, diretor-geral da plataforma ComparaJá.pt

“Hic Sunt Dracones” (Aqui há dragões) era a expressão em latim utilizada pelos navegadores de outros séculos para se referirem a territórios desconhecidos. Tal baseava-se no mito de que os territórios ainda por descobrir albergavam criaturas mitológicas, prontas a devorar os marinheiros que ousassem nos “tetos negros do fim do mundo” (como Camões, e depois Pessoa, tão bem colocaram nas suas respetivas obras-primas).

Hoje, e muito graças aos intrépidos navegadores portugueses, sabemos que não existem dragões alguns. Mas na globalização que esses mesmos navegadores lusos iniciaram, por vezes existem mesmo “dragões” metafóricos. Acontecimentos que desafiam o futuro e nos deixam na incerteza. Acontecimentos inéditos que não nos deixam vislumbrar para lá da neblina. O referendo que levou os cidadãos britânicos a optarem pela saída da EU (União Europeia) é disso exemplo.

E para o retalho, que futuro espreita? Os números podem parecer aterradores. Afinal vai sair da UE a sua segunda maior economia (atrás da Alemanha), com um mercado de 64 milhões de pessoas. Para Portugal, o futuro não é menos incerto. O Reino Unido é um parceiro comercial histórico (não esquecer que, já em 1703, o Tratado de Methuen estabelecia relações comerciais privilegiadas entre a Inglaterra e Portugal). Nos dias de hoje, a verdade é que o Reino Unido é o quarto destino das nossas exportações. Em 2015 exportamos para terras de Sua Majestade um total de 3,35 mil milhões de euros. Temos um saldo positivo da balança comercial de 1,15 mil milhões de euros. Razões para preocupações? Sim e não.

Neste momento, vão-se proceder a negociações entre as duas partes (que podem durar até dois anos) para aferir em que ponto ficam as relações entre os dois blocos. Enquanto durarem, o Reino Unido manter-se-á dentro dos tratados europeus e, portanto, tudo permanecerá como está. O problema é o “dia seguinte”. É nas negociações que será definido o novo papel do Reino Unido e quais as suas relações com a União Europeia.

E o que pode daqui sair para os ‘players’ nacionais que queiram exportar para o Reino Unido? É impensável que se fechem fronteiras à circulação de bens, tal não teria qualquer racional económico. A meu ver, na pior das hipóteses, podemos observar um aumento ligeiro das tarifas nos produtos exportados e importados da UE para o Reino Unido. Para já, tudo está no “reino” das profecias, uma vez que ainda nem foram encetadas negociações. Mas é um cenário.

Outro cenário, que acredito como mais provável (para o bem da União Europeia e Reino Unido), é estabelecer-se um acordo comercial nos moldes de que a UE já tem com países como Islândia, Noruega ou Suíça. Tanto a Noruega como a Suíça acedem ao mercado europeu dado pertencerem à Associação Europeia de Livre Comércio (a EFTA de que Portugal até já fez parte). A Noruega é ainda parte do Espaço Económico Europeu, apesar de não fazer parte da União Europeia. Também a Islândia faz parte do Espaço Económico Europeu.

Na minha opinião, e visto que o povo britânico decidiu sair, em parte por não se querer submeter a diretrizes legislativas impostas pela UE, sucederá que o Reino Unido celebrará num acordo semelhante ao suíço. Poderão ser implementadas algumas restrições relativas à circulação de pessoas mas, visto que o Reino Unido e a União Europeia possuem uma forte relação simbiótica, a circulação de bens manter-se-á numa lógica de fácil circulação de bens e serviços com baixas tarifas e poucas barreiras à entrada.

É possível que haja alguma volatilidade nos primeiros tempos de negociações. Nunca é fácil procederem-se a negociações envolvendo dois blocos económicos. Há termos a serem acordados, tarifas (se as houver) a serem estabelecidas e regulações a serem discutidas. Contudo, no final do dia, o bom senso terá que imperar. A União Europeia precisa do mercado dinâmico do Reino Unido (com a sua economia vibrante) e o Reino Unido não pode (nem deve) virar costas ao bloco económico para onde vai grande parte das suas exportações. Atrás da neblina levantada pelo Brexit, irá aparecer um novo mundo de oportunidades para o mundo do retalho… ou assim o esperamos.

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