Destaque Distribuição Homepage Newsletter

Quando a pechincha está na moda, por Susana Costa e Silva e Miguel Prazeres (Católica Porto)

Por a 14 de Junho de 2012 as 12:38

 

Susana Costa, professora na Católica do Porto

Falar em pechincha  é falar em algo muito barato, é descrever um negócio vantajoso, é na realidade pagar menos por um produto pelo qual previamente pensávamos pagar mais.

Este termo unicamente presente na nossa completa língua portuguesa, reside na nossa sociedade de consumo desde sempre, encontrando a sua casa nas típicas feiras ou no chamado comércio de rua. Isto porque é aqui que ele adopta a sua forma natural, não sendo substituído por palavras como desconto ou promoção, encontradas na grande distribuição.

Mas será a pechincha somente uma boa decisão de consumo? Se tenho a oportunidade de satisfazer a minha necessidade com um produto a um preço acessível, não será esta a melhor opção? Todos nós procuramos sempre qualidade naquilo que precisamos para satisfazer as nossas necessidades, pagando o mínimo possível. Se pensarmos, é um sentimento partilhado pela generalidade dos consumidores.

Um traço cultural que possuímos há séculos, desde o regateio nos tempos das trocas comerciais. Aqui, havia um confronto entre comprador e vendedor, onde o primeiro tinha como objectivo levar o bem pelo menor valor de troca possível. Mas esses tempos já lá vão e, hoje em dia, há maior consciência por parte do consumidor na sua decisão, com esta a ser influenciada por factores como o preço, a qualidade e o nível de satisfação, não descurando outros de índole externa, assumindo aqui a actual conjuntura económica um dos papéis principais.

Por outro lado, com a actual situação económica em que vivemos, cuja influência nos acompanha como se fizesse parte da nossa rotina, vemos o preço cada vez mais como um factor a que estamos muito sensíveis.

 

Vantagem pelo preço

Ora, então, se o preço ganhou maior preponderância nas nossas decisões de consumo, a oferta disponível no mercado capaz de corresponder às exigências do consumidor neste aspecto em particular, ganhou maior importância. Cada vez mais empresas competem pelo preço na oferta disponível, e ao mesmo tempo, há maior preocupação por parte do consumidor em satisfazer as suas necessidades, gastando o menos possível. A campanha dos 50% do Pingo Doce é disso mesmo um bom exemplo…!

Neste sentido, o consumidor é influenciado para a compra do produto, que mesmo podendo não ser vantajoso do ponto de vista da qualidade, nem satisfazendo totalmente a sua necessidade, é preferido por ter o melhor preço. Esse produto é a já referida pechincha, isto é, aquele que reúne menor índice de qualidade, satisfaz parcialmente a necessidade do consumidor, mas tem clara vantagem pelo preço.

No passado, este tipo de produto tinha, de certa forma, uma conotação negativa, pois não conseguia fugir à forçosa associação ao comércio de rua ou à compra em segunda mão. Além disso, era visto como uma compra de oportunidade ou servia de atracção para a compra não planeada, tal seria o significado que o seu preço transmite. Afinal de contas, quem não gosta de uma boa pechincha?

Mais, estes não faziam parte do nosso cabaz de consumo primário, pois serviam para a satisfação de desejos, e mesmo sabendo à partida que a satisfação da nossa necessidade era parcial, eram adquiridos pelo significado que transmitiam.

No entanto, a mentalidade foi-se alterando e, muitas vezes, a conotação negativa deu lugar apenas à compra, não por oportunidade ou por impulso, mas sim por manifesta necessidade, dada a conjuntura em que vivemos. E o cabaz de consumo tem vindo a ser progressivamente composto por este tipo de produtos. Quando falamos das promoções e descontos na grande distribuição, por exemplo, estes não são mais do que a passagem da pechincha para este meio, no sentido de acompanhar de perto esta necessidade do consumidor.

Negócios da China

Vem-se assistindo a este cenário sobretudo nos bens de primeira necessidade. O consumidor, cada vez mais, opta pela marca branca, pela promoção típica do “leve 2 pague 1” ou a de “mais 30% grátis!”. Há mais atenção aos artigos de folheto, aos produtos com “desconto em cartão”, e maior conhecimento dos melhores preços em vigência nas grandes superfícies. Os orçamentos são cada vez mais reduzidos, pelo que estas opções são cada vez mais tomadas.

Outro conceito que se adequa a esta linha de pensamento, é a crescente influência das já conhecidas “lojas chinesas”. Estas fornecem um leque extremamente variado de produtos, que vão desde sapatos, roupas, brinquedos, até aos produtos de limpeza ou artigos de cozinha, e abrangem todas as necessidades do quotidiano. Este crescimento na última década, desmesurado e sufocante, vem sendo efectivamente justificado pela crescente procura pelo produto barato, pelo que há cada mais espaço para comercializar este tipo de produtos – os chamados “negócios da china!”.

Recentemente, vemos também como resultado da crescente sensibilidade ao preço demonstrada pelo consumidor, o surgimento do fenómeno das compras em grupo, cujo exemplo maior e mais conhecido é o Groupon. Aqui, as pessoas juntam-se, por intermédio da Internet, em sites especialmente direccionados para o efeito, tendo acesso a atractivos descontos na compra de determinado produto ou serviço.

Este desconto só é possível graças à disposição de compra demonstrada por um considerável número de pessoas, que faz com que os produtores baixem o preço. Este método de promoção online cria valor para as duas partes, isto é, o comprador tem acesso ao produto que pretende adquirir por um preço bastante menor do que aquele que normalmente pagaria, e o produtor tem oportunidade de praticar descontos de quantidade dado o elevado número de compradores.

A pechincha está cada vez mais presente na nossa sociedade e tem ligação directa com a crise económica que atravessamos, isto é, quanto maior for a crise e quanto maior for o espaço temporal que esta preencha, maior e mais prolongada será a procura pelo preço. E este cenário, ao que tudo indica, estará presente por mais tempo, pelo que a pechincha está e estará, nos próximos tempos, na ordem do dia. E tendo deixado de ser inoportuno falar de pechincha, hoje em dia, pode mesmo dizer-se que conseguir uma boa pechincha é chique. ( “Dealer chic” – tendência de consumo para 2012 segundo a agência de estudo de tendências TrendWatching).

 

Artigo escrito por Miguel Prazeres, aluno do Mestrado em Marketing, e Susana Costa e Silva, Directora do Mestrado em Marketing da Faculdade de Economia e Gestão da Universidade Católica Portuguesa do Porto.

 

3 comentários

  1. Miguel Prazeres

    18 de Junho de 2012 at 17:30

    Fernando, bargain penso que é um negócio e não um termo descritivo das caracteristicas de um produto, pelo menos é desta forma que eu assumo no artigo! Ter acesso a uma “boa pechincha” é fazer um bom negócio! Obrigado pelo vosso feedback!

  2. Fernando Martins

    15 de Junho de 2012 at 11:43

    Óptimo artigo!
    Apenas uma nota: “Este termo unicamente presente na nossa completa língua portuguesa” é uma afirmação que foge à verdade. Em inglês existe o termo “bargain”, que significa exactamente o mesmo. Desconheço se existe noutras línguas.

  3. Filipa Dias

    14 de Junho de 2012 at 23:43

    Muito bom Miguel Prazeres, sempre a surpreender. Um beijo

Deixe aqui o seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *