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Um consumo mais consciente trazido pela Covid-19

Por a 25 de Agosto de 2020 as 9:34
consumo consciente

É fácil dizer que a pandemia de Covid-19 alterou profundamente as nossas vidas. Afinal de contas, estivemos confinados durante mais de um mês. Do uso obrigatório de máscara ao distanciamento social passando por uma migração para o online, as mudanças forma mais do que muitas, mas talvez nenhuma maior do que a alteração dos nossos hábitos de consumo fazendo emergir um novo consumidor: mais digital, com maior consciência sobre o preço dos produtos e dos serviços e que dá maior importância à produção local

Com o rendimento das famílias a cair como consequência do fecho da economia, tornou-se de capital importância fazer escolhas mais conscientes e amigas da produção local como um recente estudo da consultora Kantar indica. Dos inquiridos, 65% preferem comprar bens e serviços do seu próprio país, um valor que aumenta para quem se considera ativo face à sustentabilidade (79%) ou envolvido com o tema (72%). Esta tendência observada nos consumidores reflete-se, de igual modo, nos negócios e exemplos não faltam como é o caso do Royale Café. Este brunch café em Lisboa (Baixa-Chiado) serve aos seus clientes, desde 2005, refeições saudáveis mediterrânicas confecionadas com recurso a produtos sazonais provenientes de produtores locais.

E não se pense que um brunch na Baixa Chiado não faz diferença ou que se trata de nacionalismos bacocos. Ao optarmos por respeitar os ciclos da natureza, comprar a pequenos produtores ou, como vimos, escolher negócios que privilegiam a produção local, estamos a contribuir para uma economia mais saudável e sustentável.

Economia Circular e Comércio Justo

Apesar de todos as maleitas que a pandemia nos trouxe, o facto é que, a qualidade do ar, as estradas silenciosas e o olhar que fizemos repousar sobre o que era verdadeiramente importante ter ou comprar tornou-nos mais conscientes de nós, dos outros e da casa comum que partilhamos e se chama planeta Terra.

Se, para alguns, isto foi quase uma epifania que os levou a deixar de lado o consumismo desenfreado e a adotar hábitos mais conscienciosos, para outros foi apenas mais uma etapa no levar à prática de conceitos como economia circular ou comércio justo.

A Economia Circular é um conceito estratégico que assenta na redução, reutilização, recuperação e reciclagem de materiais e energia. Substituindo o conceito de fim-de-vida da economia linear, por novos fluxos circulares de reutilização, restauração e renovação, num processo integrado, a economia circular é vista como um elemento chave para promover a dissociação entre o crescimento económico e o aumento no consumo de recursos, relação até aqui vista como inexorável. Caracteriza-se como um processo dinâmico que exige, simultaneamente, compatibilidade técnica e económica (capacidades e atividades produtivas) e enquadramento social e institucional (incentivos e valores) visando o desenvolvimento de novos produtos e modelos de negócio economicamente viáveis e ecologicamente eficientes que minimizem a extração de recursos, maximizem a reutilização e aumentem a eficiência.

Estima-se que as medidas de prevenção dos resíduos, conceção ecológica, reutilização e outras ações “circulares” poderão gerar poupanças líquidas de cerca de 600 mil milhões de euros às empresas da UE (cerca de 8% do total do seu volume de negócios anual), criando 170.000 empregos diretos no sector da gestão de resíduos e, ao mesmo tempo, viabilizando uma redução de 2 a 4% das emissões totais anuais de gases de efeito de estufa.

A este “abrandamento” da pulsão consumista em que assenta a economia circular junta-se a expressão “Comércio Justo” (Fairtrade em inglês) que a maior parte de nós já deve ter ouvido em algum momento da sua vida. A proposta não é nova, mas tem crescido ao longo dos últimos anos ao ponto de levar a maior parte das grandes companhias a adotarem comportamentos diferenciados com os seus fornecedores de modo a poderem anunciar os seus produtos como provenientes do Comércio Justo. Mas, afinal de contas, o que é o Comércio Justo e como é que ele pode contribuir para um processo de consumo mais equilibrado e sustentável que vá ao encontro do novo perfil de consumidor saído do confinamento?

Nascido no final dos anos 40 do século passado, o Comércio Justo é um movimento social global que busca promover padrões produtivos e comerciais responsáveis e sustentáveis, assim como oportunidades de desenvolvimento para os pequenos agricultores(as), camponeses(as) e artesãos em desvantagem económica e social em relação às grandes corporações.

Em termos práticos, ele facilita aos pequenos agricultores um acesso direto ao mercado em condições justas e equitativas, criando um canal de comercialização sustentável, solidário, qualitativo entre produtores e consumidores com o intuito de que se reconheça dignamente o trabalho dos produtores(as) e das suas organizações e para que os consumidores se comprometam com o desenvolvimento das suas comunidades.  Além disso, procura garantir condições de trabalho dignas aos trabalhadores agrícolas e artesanais, o respeito pelas diversidades culturais, étnicas e de género e o fomento da sustentabilidade ambiental e entre as gerações.

Epílogo

Este compromisso com a produção local e a redução do desperdício que fomente a sustentabilidade ambiental são algumas das exigências do “novo” consumidor e um dos principais desafios a que os negócios terão que dar resposta hoje e num futuro pós-pandémico.

Com 64% dos portugueses a afirmarem preferir comprar bens e serviços “locais” a que se junta uma procura mais intensa por produtos orgânicos, os negócios, obrigatoriamente, terão que proporcionar a esses consumidores uma experiência diferenciadora que ultrapasse o “superficial” e se concentre em criar sinergias entre o ato de consumir e o bem global que isso traga. Já não basta suprir a necessidade imediata do consumidor, o ato de consumir torna-se cada vez menos egoísta para ser coletivo, simbiótico, ele tem que trazer com ele um valor acrescido para a comunidade como é caso dos produtos produzidos localmente

Por mais diminuto que seja comprar cebolas no agricultor ou usufruir de um brunch onde os alimentos são sazonais e endémicos, o impacto destas ações reduz a nossa pegada ecológica no planeta e ajudam à criação de uma economia circular onde todos, desde o pequeno produtor ao consumidor passando pelo comerciante, saem a ganhar.

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