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As mudanças que a Covid-19 trouxe ao mercado de grande consumo e que vieram para ficar

Por a 19 de Agosto de 2020 as 10:28

consumoA relação direta entre as vendas de bens de grande e a evolução da pandemia da Covid-19 está a desaparecer, mas há mudanças que vieram para ficar. O consumo de FMCG (Fast Moving Consuming Goods) está a estabilizar, após o pico da Covid-19, mas os consumidores estão a fazer um “reset”: a instabilidade da economia e as preocupações financeiras estão a alterar os padrões de compra.

Num momento em que a economia e o emprego se tornaram instáveis e os consumidores se acostumaram a novos hábitos, surge uma nova realidade e novos comportamentos aos quais o mercado terá de se adaptar. Chegou o ‘novo normal’, revela Scott McKenzie, responsável pela Intelligence Unit da consultora Nielsen. “As condições únicas originadas por uma pandemia que conduziu a uma recessão económica estão a forçar os consumidores a repensarem o modo como compram e o que compram. O ser humano conta, normalmente, com meses ou anos para se ajustar a novas condições. Mas este já não é o mundo em que costumávamos viver. Perante as novas necessidades dos consumidores, as marcas devem ser altamente focadas e ágeis nas suas respostas”, especifica.

Fonte: Nielsen

Fonte: Nielsen

Mudança de comportamentos responde a novas preocupações

A expressão mediática associada ao novo coronavírus no primeiro trimestre deste ano gerou mudanças no consumo a nível global, verificando-se uma relação entre a evolução da pandemia e as tendências de consumo. As vendas de desinfetante para as mãos, de alimentos básicos e de produtos de limpeza, por exemplo, dispararam face à propagação do vírus.

“Com o passar do tempo, contudo, esta correlação tende a dissipar-se e a cesta dos consumidores deixa de responder tão imediatamente ao ciclo de notícias presentes nos media. Isto não significa, contudo, que os consumidores tenham recuado na compra deste tipo de bens. Significa apenas que a sua compra já não é o reflexo das notícias sobre o aumento das taxas de transmissão do vírus”, explica a Nielsen em comunicado.

Novo panorama sócio-económico traz mudanças

A mudança de hábitos que observámos durante os últimos meses, acrescida de uma nova instabilidade económica e laboral, está a levar os consumidores a reavaliar os seus hábitos de consumo. Mas este impacto não será homogéneo: os “constrained spenders”, aqueles cujos rendimentos foram negativamente impactados pela Covid-19, vão gastar para sobreviver, enquanto os “insulated spenders” podem ajustar momentaneamente os seus gastos, apesar de os seus rendimentos terem permanecido inalterados pela pandemia.

“À medida que o comportamento do consumidor se afasta do ciclo noticioso, os componentes da cesta de compras vão vergar-se à recessão económica e à transformação da força de trabalho”, explica Scott McKenzie. “Os consumidores, quer se encontrem empregados ou não, estão menos otimistas acerca do futuro. Esta cautela vai obrigar a reconciliar hábitos de compra adotados ao longo dos últimos anos com uma nova realidade em que a saúde e o valor percecionado nos produtos são os fatores prioritários”.

Fonte: Nielsen

Fonte: Nielsen

O que está, então, a mudar?

Ao analisar estas novas tendências, a Nielsen identificou quatro padrões que podem ajudar a prever os fatores que vão pesar na decisão de compra no futuro, entre reconfigurações da cesta (basket reset), a conquista de peso do “do-it-yourself” (homebody reset), a mudança no racional de compra (rationale reset) e uma atenção acrescida para com o valor dos produtos (affordability reset). Assim, segundo a Nielsen, são quatro os pilares que vão transformar o consumidor: o quê, onde, porquê e quanto.

– O quê? Uma cesta em transformação

É expetável que os consumidores avaliem cuidadosamente os produtos que fazem parte da sua cesta de compras, uma vez que cada vez mais se revelam incapazes de manter o nível de despesas que se verificou no pico da resposta à Covid-19 e se reduz o horizonte do que é considerado “essencial” num ato de compra.

– Onde? A reorientação para o consumo em casa

Ao longo de meses passados em casa, os consumidores abraçaram uma mentalidade de “do-it-yourself” relativamente ao consumo. Em cada lar nasceram padeiros, pasteleiros, barbeiros, cabeleireiros e chefs de cozinha. E mesmo que grande parte das restrições ao movimento tenham cessado, alguns destes hábitos vieram para ficar, transformando também o comportamento de compra dos consumidores. Esta mudança no consumo em casa alinha-se perfeitamente com a transformação exigida ao ambiente de negócios atual. As marcas que conseguirem potenciar a descoberta e aprendizagem do comportamento DIY (do-it-yourself) vão ser bem-sucedidas, alinhando-se ao interesse atual num consumo criativo, consciente e seguro. Os consumidores encontram-se agora disponíveis para trazer a experiência de um produto para a segurança das suas casas.

Fonte: Nielsen

Fonte: Nielsen

– Porquê? Um novo racional de compra

Perante o atual clima económico e o aumento da taxa de desemprego, os consumidores podem ver-se com menos rendimentos. 77% dos portugueses afirmam ter alterado os seus gastos de forma a poupar nas compras para a casa (contra apenas 66% dos europeus). Com menos gastos em refeições, viagens, entretenimento e vestuário, a Nielsen prevê que os bens de grande consumo passarão a ganhar um novo significado e a ser uma forma de preencher o vazio deixado por estas poupanças.
Numa família de “constrained spenders”, a compra de refeições refrigeradas pode substituir o que antes eram produtos de alimentação de preço mais elevado, ao mesmo tempo que os “insulated spenders” podem comprar uma bebida alcoólica premium para beberem em casa ou expandir os seus produtos de cuidado pessoal como um substituto para as experiências de refeições fora de casa ou viagens a que não têm agora acesso.

As marcas que procurarem reposicionar os seus produtos nesta nova realidade necessitam de demonstrar empatia e reconhecer as alterações associadas a estes “luxos” dos consumidores. Caso consigam reconhecer e potenciar esta situação serão as que mais beneficiarão de consumidores em busca de conforto através de compras de FMCG de valor reduzido.

– Quanto? Repensar o valor dos produtos

Desde o início da pandemia, assistimos a reduções significativas nas promoções em todo o mundo, nomeadamente em Portugal. “Vemos claramente uma indicação de que a base promocional foi repensada, levando a uma enorme oportunidade para modificar o comportamento do consumidor em torno da acessibilidade aos produtos. A ausência recente de atividade promocionada leva a um momento importante e histórico no qual as marcas poderão reequacionar a sua abordagem de forma mais eficiente”.

Neste ambiente de disrupção do consumo e de transformação de tendências, cabe às marcas e retalhistas continuarem a avaliar o valor percecionado que os consumidores atribuem a cada momento de compra. O clima económico está a conduzir a enormes mudanças na perspetiva financeira dos consumidores. As marcas e os retalhistas que se mostrarem incapazes de oferecer produtos que se possam ajustar a uma disponibilidade financeira mais limitada e a sensibilidades acrescidas a respeito de preço podem perder tração a longo-prazo junto de consumidores essenciais para assegurar o seu negócio. Este é um desafio que exige capacidade de antecipação, compreensão de uma nova realidade e reestruturação da oferta, conclui a Nielsen.

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