Homepage Newsletter Opinião

O papel dos resíduos na promoção da economia circular, por Luísa Magalhães (Smart Waste)

Por a 24 de Outubro de 2017 as 12:29
Por Luísa Magalhães, Diretora Executiva da Associação Smart Waste Portugal
Por Luísa Magalhães, Diretora Executiva da Associação Smart Waste Portugal

 Luísa Magalhães, Diretora Executiva da Associação Smart Waste Portugal

O modelo de produção e consumo linear de bens, baseado em “extrair, transformar, consumir e descartar” exibe atualmente crescentes sintomas de crise social, económica e ambiental. Caracteriza-se por um excessivo consumo de matérias-primas, produção de resíduos ao longo de toda a cadeia de valor, problemas económicos sociais e ambientais e uma grande dificuldade em atingir as metas para 2020.

Atualmente somos cerca de 7,2 mil milhões de pessoas em todo o mundo e prevê-se que, em 2050, seremos perto de 10 mil milhões. A este ritmo, nesse ano, serão necessários quase três planetas de recursos para satisfazer exigências de produção e consumo. O “overshootday” em 2017 foi o dia 2 de agosto (em 2016 foi o dia 8 de agosto) demonstrando o ritmo excessivo de consumo de recursos.

Ainda há uma grande dependência da UE [União Europeia] do exterior para obter matérias-primas, tendo apenas 9% da capacidade interna para as 54 matérias-primas essenciais, com tendências a longo prazo de inflação e volatilidade de preços. Em Portugal, a produtividade dos recursos está a aumentar e foi, em 2014, 1,1€/Kg, sendo ainda metade da UE.

O consumo excessivo de matérias-primas é acompanhado por uma grande produção de resíduos, sendo a nível mundial gerado um volume de 11 mil milhões de toneladas de resíduos por ano, dos quais apenas 25% são recuperados e encaminhados para o sistema produtivo. Na Europa existem cerca de 600 milhões de toneladas de resíduos que poderiam ser reciclados ou reutilizados. Apenas cerca de 40% dos resíduos urbanos na UE28 são reciclados, variando as taxas de reciclagem entre os 64% (Alemanha) e os 5% (Roménia). Portugal apresenta uma taxa de reciclagem de resíduos urbanos de 26%, longe das metas ambientais projetadas para 2020, havendo uma grande oportunidade de melhoria.

A economia nacional gerou, em 2014, 14,6 milhões de toneladas de resíduos (32% representa resíduos urbanos e 68% representa resíduos setoriais). Foram valorizados (energética, material ou de outras formas) 74,4% do valor total e 25,6% foram depositados em aterro. Na perspetiva da economia circular, este elevado volume de resíduos não valorizados constitui um enorme desperdício e para o setor de gestão de resíduos uma grande oportunidade de crescimento e criação de valor.

Considera-se urgente alterar os paradigmas atuais da produção e consumo para prevenir resíduos, o melhor aproveitamento dos bens produzidos, quer pela partilha da sua utilização quer pela maior longevidade da respetiva vida, preservando o capital natural. Esta mudança de paradigma industrial e económico para um padrão de circularidade superior é uma oportunidade para o setor da gestão e valorização dos resíduos, para a economia e para a sociedade em geral.

A economia circular é, para o Smart Waste Portugal, um imperativo, contando neste momento com 77 associados, sendo 36% representantes do setor da Gestão de Resíduos, 17% da Indústria e Distribuição, 15% Consultadoria e Serviços, 15% Universidades e Centros de Investigação e 13% Associações, entre outros. Esta rede pode ser uma mais-valia na transição para a economia circular, promovendo o diálogo e sinergias entre estas, sempre na perspetiva de novas oportunidades de negócio.

Os novos modelos de negócio baseados na desmaterialização, partilha, reutilização e reciclagem, o eco-design dos produtos, as simbioses industriais, a promoção de plataformas de matérias-primas secundárias, a formação e a capacitação do setor empresarial são áreas que pretendem ser desenvolvidas pela associação, em colaboração com os seus associados, contribuindo para a criação de valor e a transição para a economia circular.

Portugal está numa fase que pretende liderar a transição para a economia circular, tendo apresentado recentemente o Plano de Ação para a Economia Circular em Portugal: 2017-2020, que constitui o primeiro documento de estratégia pública a procurar garantir que os princípios de economia circular, assumidos como basilares na política europeia, sejam aplicados.

 

 

 

 

Deixe aqui o seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *