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Carne do Brasil relança debate sobre a responsabilidade alimentar e social no setor agroalimentar

Por a 18 de Abril de 2017 as 12:02
RuiDias_IPAM

Por Rui Rosa Dias, Professor do IPAM

 

Durante os últimos dias, assistiu-se a uma enorme pressão no setor da carne do Brasil, com base num potencial escândalo em que diferentes organizações, privadas e estatais, estarão envolvidas. Pelo que se sabe, o processo está a ser investigado e remonta já a alguns anos atrás o que poderá tornar os valores envolvidos, não só em volume de negócios, mas essencialmente de toneladas de carne imprópria para consumo que terão e estarão, supostamente, a circular pelo mercado mundial, muito relevantes e prejudiciais à economia brasileira. China, Coreia do Sul e Europa são os principais compradores de carne do Brasil. O Brasil representa 20% da produção de carne mundial e não sendo o maior produtor – EUA assume essa posição- é o maior exportador.

O que terá falhado?

Em primeiro lugar dever-se-á entender o que é a cadeia de valor agroalimentar da carne. Como funciona? Quais os circuitos? Quem são e onde estão os produtores? Que regime alimentar e de maneio animal têm como base estratégica de produção? Como se processa o acabamento? Como é que se importa carne? Em que estado? Congelada, fresca, refrigerada, em vácuo? Quem são os importadores? Como se processa o transporte e logística de perecíveis? Quem receciona e que método de inspeção e verificação sanitária se faz nas alfândegas? Que organizações estão envolvidas na origem, expedição e no destino, receção? Como é que o importador (Agente, Comissionista, Broker, Grossista ou Retalhista e todo o canal Horeca) gere e acondiciona o produto? Como é que o produto é vendido? À peça, desmanchado, embalado? Como é que o consumidor perceciona a carne do Brasil? O que é que o consumidor valoriza na carne, quais os atributos mais importantes, e o que entende por segurança alimentar?

À primeira vista, parecem questões a mais, mas na realidade não são. Ir a um hipermercado, supermercado ou a um talho, ou ainda a um restaurante, e efetuar uma compra, tem na sua essência todas estas etapas por detrás. A complexidade de produzir, transformar, conservar, transportar e vender um produto perecível, é algo que exige muito de processos, é um macroprocesso que exige uma clara e inequívoca identificação de pontos críticos de controlo. Os canais longos, em que a exportação e importação estão presentes, como é este o caso, pela sua composição empresarial, estatal e logística, serão mais propensos a mecanismos de fraca agilidade, operacionalidade e por consequência, talvez, a maior vulnerabilidade à corrupção. As empresas exportadoras de bens alimentares correm sempre maiores riscos, que qualquer outra atividade, pela inerência do bem em sim mesmo, portanto, esta atividade reveste-se de uma enorme responsabilidade.

Ora, se assim é, a responsabilidade do Estado também é grande, não só pelo controlo sanitário obrigatório, mas essencialmente por questões relacionadas com a saúde pública e o bem-estar da população. A estas exigências de responsabilidade alimentar e social, no caso agroalimentar, ainda se adicionarão as ambientais e económicas. Se a mensuração dos efeitos da crise poder-se-ão calcular inequivocamente através das reduções das exportações, os outros efeitos, prolongar-se-ão por períodos longos e indetermináveis, dependendo ainda do aproveitamento da indústria dos substitutos “vegetais”. Refiro-me aos efeitos ambientais (por exemplo das emissões de CO2) de ter de manter carne em contentores, em devoluções, em novas verificações e até, no limite, de envio de carne para o lixo. O desperdício que vier a ser causado em toda a cadeia de valor agroalimentar da carne, é algo inimaginável e o efeito económico ainda maior. A rastreabilidade alimentar deve ser acompanhada, no caso dos alimentos, de rastreabilidade documental. Se se constata que há suspeita de fraude e se há evidências através das análises efetuadas, que se introduziram substancias impróprias, quer para a conservação da carne, quer na etiquetagem da mesma, então haverá corrupção. Mais do que o impacto económico, as praticas governamentais, os processos de rastreabilidade e a ética empresarial devem ser questionadas.

Os números dizem-nos parte da dimensão do problema: 11 mil fiscais num total de cerca de 100.000, 22 empresas envolvidas, das cerca de 5000. O Brasil produziu em 2016 6,7 milhões de toneladas. É indubitavelmente assinalável. Este volume resultou em 14,2 biliões de dólares para a economia do país. Hong Kong é o mercado que mais importa carne do Brasil. Só em 2016 comprou aproximadamente 773.000 toneladas de carne, totalizando 1,8 biliões de dólares. A UE importou cerca de 11% daquele volume e Portugal terá ficado pelas 525 toneladas. Como nota final, poder-se-á dar como garantida a maior seleção de carnes por parte do consumidor. Atributos como aspeto visual (cor, cheiro, composição da peça) serão os mais relevantes no momento da compra e é estes que o consumidor valoriza, para além da confiança no aconselhamento (caso dos talhos de proximidade). A estes, num futuro próximo, tenho a certeza que se juntarão: origem, rastreio, raça e maneio (saúde, alimentação e bem-estar animal).

 

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