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A nova revolução silenciosa no comércio, por João Vieira Lopes (CCP)

Por a 16 de Dezembro de 2016 as 11:24
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Por João Vieira Lopes, Presidente da ADIPA (Associação dos Distribuidores de Produtos Alimentares) e da CCP (Confederação do Comércio e Serviços de Portugal)*

1. Nos últimos 25 anos assistiu-se a um conjunto de transformações no sector do comércio que não tiveram paralelo nas décadas anteriores. Nos finais dos anos oitenta, mas principalmente durante a década de noventa, assistiu-se a uma clara transformação no retalho alimentar com forte presença de supers e hipermercados. Basta referir que o pequeno comércio alimentar detinha em 1985, ano de abertura em Matosinhos do primeiro hipermercado, 86% do volume de negócios deste sector e dez anos depois apenas representava 29%, absorvendo os supers e, principalmente os hipers, essa quota de mercado. É também na década de noventa que aparecem os grandes Centros Comerciais como o Colombo ou o NorteShopping, assim como se desenvolvem novos formatos como os discounts e as lojas de conveniência. O comércio de rua vai igualmente sofrendo os efeitos destas transformações, e realidades como o franchising vão ganhando expressão introduzindo novas dinâmicas, mas sofre igualmente o impacto da degradação das nossas cidades, principalmente, ao nível dos centros históricos, consequência de um conjunto de factores, designadamente, a criação de novas centralidades.

 Os anos seguintes serão marcados por muitas outras alterações, como a perda de importância do sector grossista, o aprofundamento de alguns problemas, ao nível dos centros urbanos, ou mesmo inversão de algumas tendências, nomeadamente, quanto ao peso de alguns formatos como os hipermercados que perdem expressão face aos supers e discounts. Em paralelo, assistiu-se a um significativo processo de concentração quer no retalho alimentar, quer também em alguns segmentos do não alimentar, incentivado por sucessivas alterações legislativas. Os consumidores marcam as tendências, conhecem bem os preços e apostam nas promoções. Estes fenómenos reflectem-se designadamente nas dinâmicas entre produtos de marca própria versus produtos dos fabricantes, com reflexos claros nas relações entre produção e retalho.

Mais recentemente, em resultado de múltiplos factores, designadamente, a crise com que nos defrontámos, a aceleração do e-commerce, as alterações nos padrões de consumo, a “loucura” promocional, o envelhecimento da população, processos de regeneração urbana bem sucedidas e também o aparecimento de novas dinâmicas associadas ao turismo, poderemos dizer que estamos a assistir a uma “nova” revolução silenciosa no sector. Com efeito, é já claro o “rejuvenescimento” do comércio de rua, beneficiando quer da modernização do comércio de proximidade, com o aparecimento de novas realidades e conceitos, do aprofundamento das redes de franquia, de uma articulação mais frutuosa entre comércio e serviços pessoais, com destaque para a restauração, mas essencialmente beneficiando de uma maior apetência dos consumidores pela rua, a que não será estranha alguma saturação ao nível dos centros e conjuntos comerciais.

O comportamento dos serviços nestes 25 anos é também marcado por muitas alterações, embora sendo um sector tão heterogéneo, é difícil marcar linhas de tendência comuns. Como factor mais marcante destaca-se o peso que os serviços às empresas têm vindo a assumir na economia, com maior ou menor valor acrescentado, e darão seguramente um contributo indispensável à “viragem para fora da nossa economia”. Outras dinâmicas estão em curso e darão um importante contributo, nomeadamente para a captação de não residentes fundamental não só para corrigir problemas de sazonalidade, dinamizar o sector da construção, e de um modo geral para compensar a perda de poder de compra dos anos mais recentes.

2. Em síntese, teremos, nos próximos anos, a par do reforço dos valores de proximidades, o aprofundamento de algumas tendências que importa destacar:

  • Redução das barreiras à entrada no mercado português, gerando maior concorrência, mas igualmente, oportunidades de internacionalização para as empresas portuguesas;

  • Continuação da expansão dos supermercados de média dimensão e reforço superfícies especializadas;

  • Maior presença do modelo franchising em Portugal mas, simultaneamente, será um “veículo” para a internacionalização, de alguns modelos de negócio;

  • Maior selectividade nas estratégias de consumo e consequente escrutínio da proposta de valor (preço/qualidade) consequência da estagnação do crescimento do rendimento disponível;

  • Forte integração entre as vertentes de serviço e venda;

  • Mobilização de diferentes canais de vendas (lojas físicas e canais on-line) nas actividades comerciais;

  • Automatização das operações de venda e, por essa via, introdução de modelos de negócio diferenciados;

  • Maior recurso às TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação) em todas as áreas funcionais da empresa e não somente nas vendas;

  • Maior centralidade em valores orientados para a proteção ambiental e sustentabilidade;

  • Permanente tensão nas relações entre fornecedores e retalho.

 

3. As tendências apontadas, principalmente ao nível da reanimação do comércio de rua e as potencialidades do e-commerce, porque esbatem dimensões, constituem uma nova oportunidade para o pequeno e médio comércio e muitos serviços, desde que se resolvam alguns constrangimentos (como o actual regime de arrendamento) e se adoptem as políticas públicas adequadas.

Sem pretendermos ser exaustivos referem-se as seguintes: Uma maior e melhor aposta na qualificação de gestores e empresários do sector e elevar o nível de competências a utilizar pelo comércio (em particular no domínio da envolvente empresarial) atraindo novas gerações para o sector. O desenvolvimento de políticas que contribuam para aumentar o valor acrescentado produzido pelo sector, através da valorização dos factores imateriais de competitividade e apostando na capacidade de diferenciação. Uma maior articulação entre as iniciativas visando a regeneração urbana e a dinamização das actividades empresariais.

Em conclusão, estamos convictos que com as políticas adequadas se podem alavancar as dinâmicas em curso, contribuindo para um sector de comércio e serviços diversificado e sustentável que concilie as diferentes realidades que compõem o nosso tecido empresarial.

 

*O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico

Um comentário

  1. João Barreta

    16 de Dezembro de 2016 at 17:13

    A evolução do Comércio pode-se traduzir na seguinte ideia:
    AQUILO QUE A PROCURA TEM ESPERADO DA OFERTA TEM SIDO DIFERENTE DAQUILO QUE TEM ESPERADO A PROCURA, ou seja, “aquilo que nós esperamos é muitas vezes diferente daquilo que nos espera”, sendo que só haverá COMÉRCIO, na verdadeira aceção do termo, quando as vontades … “encaixam”!

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