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A Fábrica do Futuro: que caminhos para a indústria no séc. XXI?, por Américo Azevedo (INESC TEC)

Por a 17 de Novembro de 2016 as 10:51
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Por Américo Azevedo, coordenador do Centro de Engenharia de Sistemas Empresariais do INESC TEC e docente da FEUP

Está aí a nova revolução industrial. A indústria nacional terá de se ajustar a esta nova realidade, promovendo novas estratégias de desenvolvimento industrial, centradas na aplicação intensiva de conhecimento e técnicas estado-da-arte, e apostando na criação de produtos, processos e serviços que tenham o potencial de conduzir a um crescimento sustentável e de elevado valor económico.

No passado dia 20 de outubro foram cerca de 200 as pessoas que se reuniram na Biblioteca Almeida Garrett, na cidade do Porto, para discutir a fábrica do futuro e os caminhos para a indústria no século XXI. Marcaram presença convidados internacionais e nacionais, todos com o mesmo objetivo – discutir e perceber o novo paradigma da Fábrica do Futuro. Este foi o tema do “Fórum INESC TEC do Outono”.

Olhar para o futuro da indústria exige que se compreenda como foi o passado. Hoje fala-se numa mudança de paradigma. Compreender este novo paradigma exige que se compreenda o que mudou e o que tem vindo a mudar.

A história da industrialização mostra-nos que de uma relação de personalização, centrada no artífice/artesão, se evoluiu para um ambiente de produção em massa, em que o “poder” passou para o lado do produtor e simultaneamente toda a atividade produtiva fica afastada da maior parte dos cidadãos. Nesta linha evolutiva, outro facto relevante tem a ver com a terceirização da economia e a consequente perda de importância na sociedade da atividade manufatureira. Contudo, nos dias de hoje, assistimos a uma verdadeira mudança de paradigma. O expoente desta mudança será materializado com a implantação do que se entende por “fábrica do futuro”, no ambiente do que se entende ser a quarta revolução industrial. Haverá, neste contexto, a participação ativa do consumidor nos processos de criação e de produção. Cada vez mais o sistema de produção será distribuído, formando-se um verdadeiro ecossistema de criação de valor colaborativo e adaptativo.

Desafios complexos e multidisciplinares

Os desafios que hoje se colocam à indústria são complexos e multidisciplinares. Este foi o ponto de partida que gerou um consenso inequívoco nos participantes do fórum. Igualmente partilhada pelos participantes foi a conclusão acerca do insuficiente nível de preparação e de envolvimento de Portugal na denominada quarta revolução industrial, em curso. Chegamos e estamos atrasados. Para que não fiquemos ainda mais atrás do que já estamos, onde somos considerados um País “hesitante” no que respeita ao nível de prontidão em que está para agir numa lógica de indústria 4.0, é preciso ter em linha de conta uma série de variáveis interdependentes. Temos que ganhar massa crítica. Temos de trabalhar mais em equipa, colaborativamente e envolvendo todas as partes interessadas.  Temos de nos especializar e simultaneamente temos de nos preparar para uma integração de cadeias de valor a uma escala global.

A customização do produto é também sem dúvida uma variável de peso inerente à indústria 4.0. A aposta na investigação&desenvolvimento, na inovação de base tecnológica, na organização das atividades de trabalho e na qualificação dos recursos humanos vão ser determinantes para o sucesso da “fábrica do futuro”.

No contexto nacional, reconhece-se que a maior barreira ao desenvolvimento e à inovação nos próximos anos será a provável reduzida disponibilidade de recursos humanos qualificados. Apesar de formarmos quadros de classe mundial, iremos assistir cada vez mais a um aumento da competitividade em redor destes recursos humanos altamente qualificados. No conjunto dos países, com os quais Portugal compete, os valores remuneratórios são quatro ou cinco vezes superiores aos que temos no nosso País, pelo que acima de tudo aquilo a que vamos assistir não é à falta de emprego, mas sim a uma ausência de competitividade das empresas industriais portuguesas para captar os recursos mais qualificados.

A discussão começa agora a ser lançada. Sabemos que vamos ter novos processos e tecnologias de produção, novos produtos e serviços e novos modelos de negócio. Por isso, temos de encontrar um desígnio, melhorar a organização e o alinhamento interinstitucional, procurar antever o que é que realmente aí vem de radicalmente novo e, acima de tudo, fazermos as transformações necessárias para estamos preparados para responder aos desafios futuros.

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