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“Save Food”, por Miguel Murta Cardoso (consultor de retalho)

Por a 22 de Setembro de 2016 as 10:35
Miguel Murta Cardoso consultor

Por Miguel Murta Cardoso, consultor sénior especialista em Retalho

Atualmente, um terço da produção mundial de alimentos é desperdiçada e os esforços direcionados contra essa problemática pelos governos, empresas e pessoas não têm um impacto tão satisfatório quanto esperado. Se fossemos mais eficientes nessa luta e conseguíssemos eliminar esse desperdício, essa quantidade de alimentos seria suficiente para alimentar todas as pessoas que passam fome no mundo.
Existem diversas fontes de perdas na cadeia de valor alimentar e cada interveniente tem que assumir a sua responsabilidade, fazendo a sua parte nesse combate. Para além das indústrias, dos grossistas e dos retalhistas, começaram a surgir organizações com o objetivo de sensibilizar a sociedade para esta problemática e unir as forças dos diferentes atores.
A título de exemplo, aproveito para promover a iniciativa à qual aderi recentemente, a Save Food, que trabalha com o apoio da FAO | ONU e tem como principal objetivo a redução das perdas e desperdícios de alimentos em toda a cadeia de abastecimento.
Mas não é só a sociedade que sofre com esse mal. Uma dor de cabeça das demonstrações de resultados do comércio alimentar é a rubrica onde incluímos as perdas. Os países europeus são os que apresentam o melhor desempenho e Portugal não foge à regra. Mesmo assim, o impacto é significativamente negativo para merecer a devida atenção, agravando-se por se tratar de um negócio de margens tão reduzidas. Porém, nem todas as empresas conseguem quantificar esse indicador da melhor forma e, muitas vezes, o peso é ainda maior que o estimado.
Desmitificando a rubrica, existem dois principais tipos diferentes de perdas em supermercados. A primeira é resultante de roubos tanto de clientes como dos próprios funcionários. A segunda é referente aos desperdícios decorrentes da atividade retalhista em si.
As perdas resultantes da atividade têm diversas origens. Para começar, a área comercial é responsável por garantir na negociação que os produtos a serem recebidos na loja têm datas de fabricação e validade adequadas ao seu giro. Caso contrário pode condenar todo o esforço mesmo antes de receber a mercadoria. Uma vez cumprida essa etapa com sucesso, a responsabilidade passa para a equipa de operações.
Os funcionários da receção de mercadoria são responsáveis por garantir a qualidade das embalagens e dos alimentos recebidos. Tanto eles como os repositores terão que manusear e distribuir os produtos pelo armazém e pela loja de forma adequada e com atenção para não haver danos nem nas embalagens nem nos próprios produtos.
Os manipuladores de perecíveis no setor da charcutaria, talho, padaria e hortofrutícolas têm uma responsabilidade acrescida nesse tratamento dos produtos, onde se decorrem normalmente os maiores desperdícios em supermercados.
Por último, os próprios clientes também são responsáveis por esses desperdícios, com maior incidência na área das frutas, legumes e verduras onde os produtos estão mais expostos à sua manipulação e, por isso, o atendimento deverá prevenir tanto quanto possível esse desgaste.
É inadmissível que hoje em dia ainda existam supermercados que não se preocupem com a gestão de perdas. Existem diversos casos de supermercados que conseguiram reduzir as perdas em mais de quatro pontos percentuais, criando assim um forte impacto no lucro do negócio e, simultaneamente, contribuindo positivamente para o nosso planeta.
Nesse sentido, começam a observar-se movimentos através da criação de uma área dedicada. Porém, é importante que essa equipa tenha autonomia para que seja possível mensurar as consequências do seu trabalho.

Algumas sugestões de iniciativas que trarão resultados no curto e médio prazo passam por:

  • Criar indicadores de desempenho com metas associadas na área comercial e operações e promover os bons resultados atingidos através de prémios;
  • Implementar com frequência formações de melhores práticas para os diversos setores que têm contato com os produtos;
  • Convocar eventos de consciencialização com organizações dedicadas ao tema para alertar os funcionários da gravidade dos desperdícios tanto para a sociedade como para o desempenho da própria loja;
  • Instituir inventários com maior comprometimento e frequência;
  • Criar seções de vendas com produtos “feios” ou danificados ou doá-los a instituições de caridade;
  • Alertar os clientes através de comunicação especializada.

O desafio que lanço para os retalhistas é de reduzir as perdas para metade do que registam atualmente. Na minha opinião, atingir essa meta depois de desmistificar a rubrica não será tão complicado. A maior dificuldade será conseguir quantificar e identificar corretamente as fontes de perda em cada etapa da operação. Para isso, pode contar com o apoio de iniciativas como a Save Food que estão empenhadas nesta causa em todo o mundo.

 

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