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Ainda tem mercearia no seu bairro?, por Miguel Murta Cardoso (consultor)

Por a 18 de Agosto de 2016 as 14:09
Miguel Murta Cardoso
Por Miguel Murta Cardoso, consultor sénior especialista em retalho

Lembra-se da mercearia do seu bairro? Histórias como a do Sr. Manel são cada vez mais comuns no mundo dos comerciantes independentes.

Há uns tempos, recebi a notícia que o Sr. Manel do bairro onde cresci fechou as portas do seu minimercado. As últimas quatro gerações da minha família foram seus clientes. Ouvia-os dizer orgulhosamente que pediam para adicionar certos produtos e no dia seguinte já os encontravam nas prateleiras. As crianças adoravam passar por lá diariamente em busca das guloseimas que o Sr. Manel lhes oferecia. Todos admiravam a sua simpatia e atenção com o atendimento.

A dada altura, com a expansão das grandes redes com preços agressivos, a loja começou a passar por algumas dificuldades. Os bons velhos tempos em que a concorrência ainda não o incomodava ficavam para trás. À medida que o preço se tornava num fator decisivo para a escolha do local das compras, a sua situação foi piorando. Lembro-me de ver a minha família a começar a frequentar o famoso ‘cash & carry’ e reduzir a frequência na tradicional loja de vizinhança.

Num dia de trabalho que se aparentava igual aos outros, o Sr. Manel chegou às seis horas da manhã ao seu estabelecimento. Como sempre, chegava com o camião carregado do hortofrutícolas para serem vendidos nos dois dias que se seguiam. Para isso, saiu da sua cama às quatro horas da manhã para ir até ao mercado abastecedor para uma das suas atividades preferidas, a negociação das frutas, verduras e legumes.

Porém, ao abrir a loja, deparou-se com uma cara desconhecida. O homem apresentou-se como representante de uma grande rede retalhista e fez-lhe uma oferta avultada pelo espaço da sua loja.

Tinha de admitir que o valor era atrativo e que o ia aliviar das dificuldades que acumulou ao longo dos últimos tempos. No entanto, não era uma decisão fácil depois de tantos anos a investir dinheiro, tempo e trabalho no seu espaço. E o que iria fazer daí para a frente? Como ocuparia o seu tempo? Acabou por recusar a oferta e a continuar a trabalhar para não perder a sua clientela mais fiel.

Uns anos mais tarde, um outro jovem engravatado bateu à sua porta com outra proposta: converter a loja numa franquia. O Sr. Manel pensou muito sobre o assunto uma vez que neste modelo poderia continuar a trabalhar e gerir a loja. Mas, como toda a franquia, teria que seguir um conjunto rígido de regras. Começaria por perder o nome da sua loja e a identidade visual seria adaptada à da franquia. Para agravar a situação, não escolheria o sortido presente nas suas prateleiras nem seria responsável pelas negociações com os seus fornecedores.

Para um empreendedor habituado a fazer todo esse trabalho ao longo da vida, e sendo essa a sua paixão, perder o poder de decisão estava longe das suas pretensões. Como se lhe roubassem a alma do negócio e, portanto, o Sr. Manel decidiu ficar sozinho.

Infelizmente, depois de muito resistir abriu falência. As dificuldades que enfrentou durante vários anos foram-se agravando, a concorrência foi-se expandindo de forma cada vez mais agressiva, em busca de maiores quotas de mercado. Sem misericórdia.

Haveria alguma maneira de sobreviver sem perder o controle da sua loja? Acredito que o modelo de rede de independentes, formada por retalhistas que se juntam para combater a concorrência e mantém a sua identidade, seria a solução ideal para o Sr. Manel. A diferença desse modelo para o formato de franquia é que, dessa forma, poderão continuar a trabalhar partilhando apenas o que seja de seu interesse, sem ter que seguir obrigatoriamente um conjunto específico de regras.

Os principais ganhos estão à vista: melhores negociações com fornecedores; a partilha de informações e melhores práticas entre lojistas; possibilidade da existência de uma equipa de suporte à rede, trazendo ganhos de escala nos processos de suporte de recursos humanos, jurídicos, tributários, tecnológicos, entre outros.

Por outro lado, esse formato de parceria não é realmente reconhecido como uma rede de retalho. Nesses agrupamentos de lojas, por não existirem regras tão rigorosas como nas franquias, cada um trabalha como quer e pode. Muitas vezes nem partilhando uma marca e identidade visual comum.

Em tempos difíceis, os comerciantes independentes devem procurar as soluções que mais se adequam ao seu perfil num mercado que se encontra em constante evolução e transformação. Mas sozinho, acabará por morrer.

Um comentário

  1. Carla Novais

    19 de Agosto de 2016 at 19:54

    Boa tarde!
    No panorama falado faltou mencionar uma outra via, esta única no nosso
    mercado actual e que tem por nome COVIRAN!
    A COVIRAN opera em formato de cooperativa cedendo ao associado todo o serviço da distribuiçao moderna á sua porta e permitindo a este manter a sua autonomia e independencia de sempre!

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