Emprego & Formação Opinião

A crise de candidatos no sector do retalho

Por a 29 de Setembro de 2010 as 15:50

Nos últimos tempos muito se tem falado sobre a crise económica. Uma crise que tem afectado os vários sectores de actividade, e o do Retalho não foi excepção. Este é um mercado volátil, que oscila mediante o poder de compra do consumidor e o seu grau de confiança para investir.

O Retalho, com as suas vicissitudes, para além de sofrer o impacto da crise na economia, depara-se ainda com uma “crise de candidatos”. O mercado está repleto de profissionais que, receando a mudança, não estão receptivos a novos projectos; outros, ainda que procurem mudar de emprego, acabam por recuar ao aceitar uma contraproposta. Há ainda os que, estando disponíveis, não empreendem uma procura activa.

Este é o cenário de dificuldade crescente com que se depara um consultor de recrutamento que inicie um processo de selecção exigente e minucioso. Aquando da apresentação de uma shortlist de candidatos a um cliente, já não basta analisar e avaliar um maior número de profissionais até chegarmos ao perfil pretendido para a função. É preciso agora tentar avaliar, mediante a entrevista pessoal e profissional, se estão realmente receptivos ao projecto em questão e se não vão recuar na hora da apresentação de uma proposta contratual.

Recuperando a questão dos tipos de profissionais activos referida anteriormente, importa explorar um pouco o tema. Mediante a actual conjuntura económica, quem possui condições contratuais estáveis mas está insatisfeito com o projecto e a empresa evita a mudança. Estando consciente das suas responsabilidades financeiras, este tipo de profissional não quer arriscar uma nova situação profissional, por mais aliciante que esta possa ser em termos de remuneração e desenvolvimento. Falta-lhes a coragem de admitir que, por vezes, é necessário dar um passo atrás para garantir que, num futuro próximo, possam dar dois passos em frente. Existem também os profissionais que se acomodam ao seu posto de trabalho e pretendem permanecer no mesmo sem prestar atenção ao mercado e à respectiva dinâmica de oferta vs procura.

Falemos agora dos candidatos que procuram uma mudança, mas que acabam por aceitar uma contraproposta. Numa empresa especialista em recrutamento como a Hays, deparamo-nos diariamente com este tipo de profissionais. Recorrem aos nossos serviços para orientar o seu plano de carreira, normalmente com intenções de integrar um determinado processo de recrutamento. No entanto, depois de seleccionados pelo cliente, resolvem aceitar uma contraproposta da sua entidade patronal. O que fazer mediante uma situação destas?

Por mais investimento que haja da parte do Consultor, e até mesmo do Cliente, em despistar esta possível atitude, temos de ter em conta que estamos perante recursos humanos que se movem por questões emocionais, motivacionais e remuneratórias. Se a actual entidade patronal lhes apresenta uma situação similar ou superior àquela que ambicionam, optam por aquela que, no momento, já conhecem e consideram mais confortável.

Em 80% dos casos, esta não é a melhor opção e, regra geral, voltamos a ser contactados por estes mesmos profissionais no espaço de seis meses a um ano. Nessa fase já estão realmente receptivos a novos projectos, por vezes até menos aliciantes do que aquele em que estiveram envolvidos anteriormente.

Como Consultora responsável pelo sector do Retalho, estas têm sido realidades com que me tenho deparado na concretização de um processo de recrutamento. Torna-se cada vez mais difícil gerir as motivações dos profissionais / candidatos deste sector e o seu enquadramento no perfil pretendido e exigido pela função.

Tânia Coelho, Senior Consultant, HAYS Recruiting Experts in Retail

2 comentários

  1. Ana Lúcia

    23 de Abril de 2011 at 21:43

    Acredito que o artigo seja realmente um alerta a Portugal. O receio da crise aumenta na busca de desafios maiores e com isso uma distância de novos rumos. No Brasil, trabalho numa grande empresa de retalho, que sempre busca em seus colaboradores (novos ou antigos) novas idéias. Não dá para ficar comodo, muito mais em crise de um país. Acredito que crises podem mostrar novos caminhos para o país, mesmo que ao princípio a remuneração seja menor, a busca da realização profissional compensa e a motivação é natural.

  2. Andreia Lopes

    14 de Abril de 2011 at 16:32

    Boa Tarde,
    Concordo com o artigo na íntegra. Lamento que a crise económica que se instalou no nosso país seja uma desculpa utilizada para muitos colaboradores não aceitarem novos desafios profissionais.Quando não nos sentimos motivados com o nosso trabalho temos o dever de pesquisar o mercado de forma a encontrarmos um projecto aliciante. O que observo, na grande maioria dos casos de colaboradores desmotivados é o tal «comodismo» que fala no artigo. Acredito que conseguimos fazer um trabalho razoável mesmo quando estamos desmotivados com o mesmo, porém sou apologista que quando estamos motivados e «apaixonados» pelo projecto que representamos iremos, de certeza, realizar um trabalho fenomenal. É fundamental aceitarmos novos desafios com os quais nos identifiquemos e não apenas porque são melhor remunerados.

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