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Abraçar a complexidade trazida pela “revolução de dados”

Por a 11 de Dezembro de 2017 as 10:45
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Dos robots até às interfaces de voz, passando pelos carros autoguiados, realidade virtual, blockchain e sustentabilidade no retalho. As tendências tecnológicas retiradas da Web Summit dizem que ainda há muito sumo a extrair dos dados e a chave está na criatividade

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Acordar de manhã, com a própria casa a informar quem da restante família já se levantou; encaminhar os filhos para um carro autónomo, que os leva à escola por ruas onde se avistam robots em abundância; almoçar uma refeição rápida à base de insetos – a nova “junk food”; e pagar pelos cuidados de saúde com as próprias células, doando por exemplo sangue. Foi assim que Andra Keay, managing director da Silicon Valley Robotics, descreveu durante a Web Summit um dia comum na vida de um ser humano em 2030.

A diretora do hub tecnológico para startups de robótica foi um dos mais de 1200 oradores presentes no evento que atraiu a Lisboa acima de 60 mil visitantes, vindos de mais de 170 países, entre os dias 7 e 9 de novembro.

Durante a conferência “Our robot future society: a day in life in 2030”, que decorreu no palco “Auto Tech/TalkRobot” – um dos nove que formaram o evento de tecnologia – a “roboticista” defendeu que nos próximos anos o impacto da tecnologia na vida humana vai aumentar substancialmente, porém, a “chave” para a mudança não está propriamente nos robots – esses já cá estão “há mais de 50 anos” – mas sobretudo nos dados e na interação.

“A questão não é o hardware mas a complexidade”, sublinha Andra Keay, explicando que o desenvolvimento tecnológico torna as inovações mais acessíveis em termos de preço e, com essa cada vez maior democratização, aumentam os dados gerados, os quais vêm permitir criar sistemas robotizados cada vez mais complexos e com maior capacidade de interação.

“Vejam como mudaram os nossos hábitos de compra nos últimos anos. A tecnologia impulsionou o ecommerce e a experiência de retalho. No futuro, o impacto tecnológico aumentará em todos aspetos das nossas vidas”.

O tema da robotização da sociedade e da indústria traz por arrasto a questão: será que os robots vão atirar os humanos para o desemprego? Colocando o dedo na ferida, Jacques Van der Broek, da empresa de recursos humanos Randstad, indica durante a mesma conferência que “um em cada seis” postos de trabalho vão desaparecer no futuro. O cenário contorna-se com novas funções que passarão a ser necessárias, como engenheiros de manutenção ou outras especialidades para a indústria tecnológica.

E essa transferência dos trabalhadores já se começa a notar. “Os motoristas vão desaparecer entre cinco a dez anos, devido aos carros autónomos. Curiosamente, esta é hoje uma das profissões para as quais temos mais dificuldades em encontrar profissionais”, destaca.

Carros autónomos e realidade virtual

 

Intel CEO Brian Krzanich presented a keynote Tuesday, Nov. 7, 2017, at Web Summit in Lisbon, Portugal. At the event, Krzanich displayed one of Intel's data collection vehicles that will transition into Intel’s Level Four autonomous driving fleet. (Credit: Intel Corporation)

Brian Krzanich, CEO Intel

Os veículos autónomos destacaram-se um pouco por todo o evento. Brian Krzanich, CEO da Intel, dividiu o palco principal, ao qual subiu no final do segundo dia da Web Summit, com um modelo de carro autónomo construído pela gigante de tecnologia, com recursos a sensores, câmaras e sistemas de GPS. “Os carros autoguiados vêm colmatar o problema da segurança na estrada. Todos os anos morrem milhões de pessoas na estrada devido sobretudo a acidentes provocados por humanos”, destaca.

“No próximo ano” chegam ao mercado os primeiros carros autónomos com sistemas da Intel, garante o diretor executivo, para quem neste momento se vive “uma revolução de dados”.

Atualmente, cada indivíduo gera em média “600 megabytes (MB) por dia, o que deve aumentar para os 1,5 gigabyte (GB) em 2020”. O ritmo de crescimento deste valor deve acelerar “há medida que se consome cada vez mais vídeo”. O que traz “possibilidades infinitas para criar valor” no mercado.

Neste sentido, a Intel está também a desenvolver um novo conceito de realidade virtual (VR) que possibilita aos utilizadores assistirem, por exemplo, a um jogo de basquetebol através da visão do próprio, partilhada em VR, de um jogador em campo por si escolhido.

Blockchain está a criar uma “bolha boa”

 

Joseph Lubin, co-fundador da Ethereum

Joseph Lubin, co-fundador da Ethereum

Satoshi Nakamoto além de criar a bitcoin, em 2008, inventou a blockchain – “máquina que trouxe confiança aos especialistas em economia”, classifica Joseph Lubin, co-fundador da Ethereum. A empresa surgiu após os fundadores se aperceberem, em 2012, que a tecnologia baseada em dados (blockchain) poderia ser usada para criar aplicações além das moedas virtuais.

Quanto à especulação do mercado em torno das criptomoedas e do sistema descentralizado que as suporta, o responsável indica que “estamos numa espécie de bolha boa”, uma vez que a blockchain está a permitir “desenvolver novos sistemas colaborativos” representando uma “revolução na forma como construímos os negócios”.

“As pessoas estão a transportar valor gerado no mundo físico para o digital. Então esta bolha está a criar um sistema fundamental para uma nova economia”. O responsável acredita que “em cinco anos as empresas vão utilizar com regularidade” a blockchain.

Como a Walmart está a trabalhar a sustentabilidade

Kathleen McLaughlin, Chief Sustainability Office Walmart

Kathleen McLaughlin, Chief Sustainability Office Walmart

A Walmart começou em 2005 a trabalhar em sustentabilidade, para “reduzir custos e conseguir melhores resultados”, definindo três objetivos: chegar aos 100% de energia renovável, reduzir o desperdício e conceber produtos mais sustentáveis, explicou, numa das primeiras sessões da conferência, Kathleen McLaughlin, Chief Sustainability Officer da maior cadeia de retalho do mundo.

Para cumprir as metas definidas a empresa norte-americana criou um programa para envolver fornecedores, desde o packaging à distribuição, para reduzir a pegada ambiental em toda a cadeia de valor. Este ano, a empresa lançou uma plataforma que funciona como “kit” de ferramentas para os fornecedores reduzirem as suas emissões, cujo objetivo é reduzir até 2030 as emissões em “um gigaton” – o equivalente a retirar “211 milhões de veículos de passageiros das estradas dos Estados Unidos durante um ano”.  Além disso, está a trabalhar com projetos de desflorestação e a reduzir o desperdício transformando-o em “novos fluxos de receita”, ao reintroduzi-lo na cadeia de valor seja através da indústria ou de novos produtos.

Desde 2005 a distribuidora conseguiu reduzir o desperdício em “77%” e espera até 2025 chegar a uma diminuição de 85% das emissões de gases para a atmosfera, assim como alcançar no mesmo ano os 50% de energia consumida proveniente de fontes renováveis. Neste momento, 26% do consumo da retalhista advém de fontes renováveis, dá conta a diretora de sustentabilidade. A Walmart “redesenhou os próprios veículos e embalagens” no sentido de conseguir alcançar estes números. “Hoje temos consciência que não podemos separar os objetivos económicos, sociais e ambientais”, sublinha Kathleen McLaughlin.

Voz: a interface humana

Werner Vogels, CTO Amazon

Werner Vogels, CTO Amazon

Werner Vogels, CTO (Chief Technology Officer) da Amazon, não tem dúvidas: os sistemas de Internet das Coisas (IoT) têm que começar a adotar interfaces humanas além das interfaces computacionais, como as aplicações móveis, explica durante a apresentação “Amazon wants to talk to you”, no último dia do certame. Dando o exemplo do International Rice Research Institute (IRRI), o qual adotou um sistema de motorização da cultura do arroz que comunica com os agricultores através de voz, o responsável explica que a comunicação através da fala vem ajudar a aproximar a tecnologia daqueles que não estão familiarizados com computadores.

“Já 10% das pesquisas online são feitas por voz”, assegura o CTO da empresa que detém no mercado dois dispositivos de comando por voz, a Echo e a Alexa, e está focada agora na pronúncia e qualidade de voz das suas interfaces para oferecer um melhor serviço. A gigante do ecommerce disponibiliza no mercado um “kit” de ferramentas que já permitiu a programadores criar um total de “25 mil novas capacidades” para a Alexa. Também o público em geral pode desenvolver capacidades individuais para a sua própria utilização da Alexa, que funciona como um assistente digital, através de uma plataforma de inteligência artificial (AI) da retalhista.

*Texto publicado originalmente na edição impressa de dezembro. Por este mês o HIPERSUPER comemorar 28 anos, a versão digital está aberta a todos os leitores. Pode ler aqui .

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