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O futuro dos transportes e o impacto no retalho

Por a 6 de Dezembro de 2017 as 10:35
Pedro-Fernandes_Edigma

Dude, where´s my car?

Por Pedro Fernandes, Marketer*

Cada vez se fala mais em carros autónomos (self driving cars). O número de empresas a trabalhar nesta área é impressionante e os grandes nomes do sector tecnológico, da indústria automóvel e da indústria dos transportes estão activos. Há múltiplos projectos-piloto a decorrer neste momento, em diferentes pontos do Mundo, levados a cabo por diferentes empresas com veículos autónomos em estradas abertas. Tudo indica não faltar muito para vermos carros sem condutor nas ruas das nossas cidades.

É fácil identificar impacto directo e imediato, como a obsolescência de condutores de transporte de carga ou de passageiros. Esta obsolescência terá também repercussões numa série de negócios que estão assentes nessa indústria. Será um fenómeno análogo ao impacto que construção de auto-estradas teve em inúmeros restaurantes e lojas ao longo das estradas nacionais.

Prevê-se um impacto indirecto noutras indústrias, como por exemplo nas seguradoras, uma vez que esta nova tecnologia deverá diminuir significativamente a taxa de acidentes rodoviários.

Mas, os efeitos desta tecnologia não ficarão por aqui. A forma como estamos organizados enquanto sociedade vai ser afectada profundamente, e o retalho não escapará a este fenómeno.

Um dos efeitos frequentemente mencionado é o decréscimo acentuado da necessidade de lugares de estacionamento. Este argumento assenta no pressuposto de que as frotas de carros autónomos estarão em (quase) permanente rotação, e deixará de haver aquela necessidade de estacionar o carro durante vinte minutos para efectuar um recado. Quando o nível de utilização for mais baixo, previsivelmente durante a noite, a frota pode auto estacionar-se em locais onde o preço por metro quadrado seja mais baixo.

Esta queda na necessidade de estacionamento irá libertar quantidades enormes de terreno em zonas nobres, que poderão ser alocados à criação de novos espaços verdes, construção de habitação ou, por exemplo, mais retalho e restauração, abrindo assim novas oportunidades para estes sectores. O próprio aumento de área disponível poderá ter um efeito de desvalorização do preço por metro quadrado, tornando viáveis negócios que com outra estrutura de custos não eram viáveis. Mesmo o aumento de população nessas áreas incentiva a que haja um reajuste no comércio tradicional local, por forma a satisfazer a nova configuração populacional.

Há outro aspecto em que o retalho irá beneficiar com esta nova tecnologia. Existem inúmeros negócios, dentro do actual paradigma automóvel, para os quais ter lugares de estacionamento nas proximidades é um factor crítico para o sucesso. No novo paradigma isso irá mudar, e o sucesso do retalho deixará de estar tão dependente do estacionamento disponível, uma variável que está fora do controlo do comércio tradicional. Este fenómeno é tão decisivo que a compra de lugares de estacionamento para uso exclusivo dos seus clientes é uma prática comum por parte das lojas. Isso deixará de fazer sentido neste novo paradigma e, consequentemente, deverá baixar a estrutura de custos.

A abundância e facilidade de transporte abrirá também novas oportunidades para servir mais e melhor o cliente. Actualmente, a restauração que efectua entregas ao domicílio necessita de ter um volume grande de vendas para conseguir absorver o custo fixo de uma frota de veículos. É verdade que já existem empresas que efectuam este serviço de frota em regime de outsourcing, e que permitem que restaurantes mais pequenos possam oferecer o serviço de take-away, mas ainda é um fenómeno a uma micro escala. Com veículos autónomos será muito mais fácil para os restaurantes incluírem o serviço de entrega na sua oferta. Com este serviço a ser prestado por grandes frotas de veículos autónomos, a adopção será bastante superior porque a fricção do processo será menor, a confiança no serviço aumenta, e a capacidade de distribuição será igualmente maior.

Mesmo o comércio tradicional poderá acrescentar esta camada de serviço à sua proposta de valor e fazer a entrega ao domicílio quando, actualmente, apenas as lojas de produtos de grandes dimensões o fazem. Qualquer loja poderá entregar as compras em casa do cliente, o que proporciona duas grandes vantagens: por um lado, o cliente pode agendar a entrega para uma hora em que sabe que está em casa, disponível para receber a encomenda, resolvendo um dos momentos de maior constrangimento com as entregas ao domicílio (infelizmente, os serviços de entrega existentes nunca resolveram esse problema, e é por isso que vão ser ultrapassados); por outro lado, as lojas mais pequenas passam a ter mais facilidade em aceder ao serviço de entrega ao domicílio, e conseguem assim aumentar o seu nível de competitividade face aos concorrentes de maior dimensão.

Um exemplo de ideia de negócio é montar uma mercearia sobre rodas, isto é, um veículo autónomo que funcione como uma espécie de máquina de vending. Perto da hora de jantar este veículo pode andar por zonas residenciais e é solicitado através de uma app, como quem chama um Uber. E a oferta pode variar entre a venda de pão quente, aquele ingrediente que de repente nos damos conta que falta no frigorífico mas que não dá jeito parar o que se está a fazer para ir comprar, ou aquelas compras típicas que fazemos na mercearia perto de nossa casa. No futuro a mercearia vem ter à nossa porta.

*O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico

 

 

 

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