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Aguardentes: produtos cada vez mais raros, por José Gaspar (CVR Tejo)

Por a 6 de Fevereiro de 2013 as 11:11
José Pinto Gaspar, presidente da CVR Tejo
José Pinto Gaspar, presidente da CVR Tejo

Por José Gaspar – Presidente da Comissão Vitivinícola Regional do Tejo (CVR Tejo)

Como todos sabemos, as aguardentes vínicas ou bagaceiras, conforme derivem directamente da destilação do vinho ou das películas das uvas após fermentação, têm sido até ao presente bebidas espirituosas de divulgação e consumo regular nos países de tradição vitivinícola.

Poderemos, no entanto, colocar a questão se no futuro será assim.

Vimos assistindo, nos últimos anos, a uma redução progressiva do seu consumo, tal como dos brandy, igualmente de origem vínica. Distinguem-se estes das aguardentes, pelo facto dos primeiros poderem conter componentes aromáticos externos.

A redução de consumo verificada nas três últimas décadas deve-se essencialmente a uma evolução do preço, que os aproximou de produtos de origem não vínica, tal como o whisky e a vodka, entre outros.

Já anteriormente abordámos o tema do “Lago de Vinho” europeu. Voltamos novamente ao tema para chegarmos às aguardentes.

Era há dois anos atrás impensável que o preço do vinho a granel viesse a atingir o valor que tem hoje no mercado. Em alguns casos quase que se verificou uma duplicação.

Sucede também que se verificou uma alteração na política comunitária e a “Intervenção à destilação” acabou em 2012 em Portugal e em 2011 em Espanha. A dita intervenção permitia aos destiladores comprarem vinho “bonificado” para destilar, contribuindo assim para a redução do dito “Lago”.

Porém o “Lago” secou, a “Intervenção” acabou e o preço do vinho duplicou…

Sabemos que para fazer um litro de aguardente são necessários sete litros de vinho. Há dois anos, um litro de aguardente vínica acabada de destilar valia cerca de um euro e trinta cêntimos. Hoje ronda os quatro euros!!!!! Espantoso… Se me dissessem isto há dois anos diria: IMPOSSÍVEL. No entanto, esta é a realidade.

Agora é uma questão de fazer as contas. Uma aguardente vínica tem de envelhecer no mínimo dez anos para se tornar “bebível” e “civilizada”. Assumindo uma evaporação média anual de cinco por cento, fica bastante menos no final do envelhecimento.

Acrescentando, por outro lado, o custo da imobilização e juros do capital investido, o valor dispara para números astronómicos, que colocarão este nobre produto nacional a nível bem superior das mais dispendiosas bebidas espirituosas importadas.

Isto para não falar no Vinho do Porto, da Madeira e de outros ditos licorosos, em cuja produção a aguardente tem um peso muito importante. Será que o futuro do Vinho do Porto está em risco? Será que os mercados externos consumidores de Vinho do Porto, que representam noventa por cento da nossa produção, irão aceitar um significativo aumento de preço? Se as Aguardentes têm pouco peso na exportação o mesmo não se pode dizer do Vinho do Porto.

Atenção Senhores Governantes.

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