
*Paulo M. Morais
Uma lâmpada transparente deixa vislumbrar um filamento em tom verde. É uma planta que nasce de uma porção de terra, devidamente acomodada a partir do casquilho. A imagem representa duas ideias: inovação e desenvolvimento sustentável. Temas em debate durante o III Congresso da Federação das Indústrias Portuguesas Agro-Alimentares (FIPA).
O dia de trabalhos revela-se pródigo na exposição de tendências, teorias, estudos de caso. O conjunto das intervenções serve para mapear, mais do que o estado de um particular sector industrial, um guia para a sobrevivência empresarial num período económico conturbado e num mundo cada vez mais competitivo e globalizado.
Surge no horizonte um novo consumidor. Acima de tudo, mais e melhor informado na hora da decisão de compra.
Preocupa-se com a forma física e a saúde, sem colocar de lado a vertente hedonista do deleite sensorial. É um consumidor exigente que quer o melhor de dois mundos: um produto saudável e, ao mesmo tempo, saboroso e excitante. E, se possível, fácil de manipular.
A intervenção de Pedro Queiroz, director-geral da FIPA, traçou esta “perspectiva evolutiva dos produtos alimentares”. Há tendências que colocam desafios importantes às empresas mas que também mostram orientações possíveis. Segundo os dados apresentados, no exercício de compra do produto alimentar, o Prazer (associado grandemente à sofisticação do produto) ocupa um espaço determinante: 43%. Nos outros factores, encontramos a Conveniência (24%), a Saúde (17,3%), a Forma Física (13%). A Ética, associada também ao tal desenvolvimento sustentável do lema do congresso, ainda só pesa 0,7% na opção de compra. Residual, portanto. Mas a não perder de vista, já que o consumidor estará cada vez mais esclarecido não só sobre a composição dos produtos, mas também sobre os modos de produção.
Que fazer então perante este novo consumidor, ávido de prazer comestível ou bebível, de forma rápida, ao mesmo tempo que lhe cuidam da saúde e do corpo e, já agora, do ecossistema do planeta? A resposta mais concordante consiste numa palavra: inovar. Pedro Queiroz salientou que o sector tem mostrado estar à altura. A macro-tendência da preocupação com a saúde teve resposta nos produtos funcionais, nos “rótulos” bio, orgânico, eco. A disciplina da nutrição está hoje em dia incorporada nas empresas para fazer face às pretensões do consumidor em perder peso e alimentar-se adequadamente. Quanto à busca do prazer, satisfaz-se através de produtos premium, da qualidade e da novidade. Sem esquecer a conveniência, com o aparecimento de produtos cada vez mais compostos e, simultaneamente, fáceis de preparar.
Parceria com a ciência
Neste processo de contínua inovação e adaptação ao mercado, o sector empresarial deveria andar de mãos dadas com o sector científico e académico. Mas várias intervenções acabaram por ilustrar que ainda há pontes por construir. Pedro Queiroz defendeu que “o trabalho de investigação científica tem de ter aplicações práticas”.
Jorge Oliveira, senior lecturer da Universidade de Cork (Irlanda), evidenciou a necessidade do relacionamento entre os dois universos. “As universidades devem pensar que trabalhar para as empresas é o melhor serviço público que podem fazer.”. Aos presentes, o professor lembrou que as empresas têm ao dispor fundos para comprarem serviços de Investigação & Desenvolvimento (I&D), através da Agência de Inovação, e que a própria UE tem um programa chamado Investigação para Benefício das PMEs.
Mira Amaral deu uma achega ao tema com a introdução do conceito economia do conhecimento. Segundo o CEO do Banco BIC, os países são hoje em dia ferozes concorrentes pelos recursos humanos no campo da investigação. E que Portugal sujeita-se a ficar sem os seus melhores cérebros. “Não me choca que eles vão lá para fora, choca-me que não regressem”. Ainda assim, Mira Amaral defendeu que Portugal tem bons níveis de investigação científica e tecnológica. O mal, apontou, reside na inovação empresarial, em que estamos num nível infra-europeu. Cabe às PMEs inovar, utilizando o conhecimento existente para criar valor (seja em novos produtos ou novos processos).
Além disso, é preciso que a inovação seja “dinâmica e não estática”, face à rapidez com que a concorrência se adapta aos novos produtos que entram no mercado.
Actualmente, “as vantagens competitivas são transitórias”.
Jorge Oliveira já aludira ao tema. Além de defender que o Estado deve prosseguir a criação de incentivos às empresas que invistam em I&D, preconiza que é necessária maior protecção. E exemplifica com as marcas de distribuição (MDD), baseadas na sub-contratação de produção. A superfície de distribuição, também “produtora”, coloca os seus produtos ao lado das outras marcas que pagaram para lá estarem.
Para o catedrático, este é um caso prático de “concorrência desleal” e de que a I&D não é devidamente protegida, embora reconheça que o assunto das MDD “não é fácil” e está a merecer amplo debate.
Inovar: um acto corajoso
O congresso decorrido no Convento do Beato, em Lisboa, reveste-se também de casos práticos de abordagens empresariais à inovação. Duarte Pinto, CEO da Sumol+Compal, reconhece que as MDD alteraram o contexto competitivo e defende que se não fosse a inovação – proveniente das marcas de fabricante – o sector em que a empresa actua teria decrescido na ordem dos dois por cento.
Mas afinal como se inova? Logo à partida, o gestor indica que as empresas têm de combater o estado de “insanidade” instalado no todo ou em partes da organização. “Continuar a fazer sempre a mesma coisa, da mesma forma, dificilmente trará resultados diferentes”. A solução é ter coragem. “Não basta ter ideias, é preciso coragem para colocá-las no mercado”.
Depois é necessário ter estofo para aceitar o erro.
Segundo o CEO, a inovação traduz-se em muitos fracassos, normalmente num rácio de 1 (sucesso) para 8 ou 9 (fracassos). E avança que na Sumol+Compal desenvolvem-se anualmente 400 fórmulas, utilizando mais de 80 variedades diferentes de fruta, para no final colocar no mercado cerca de 30 novos produtos. E apesar de 2009, ano de crise, marcar a fusão das duas empresas numa só entidade, a empresa encarou o período como uma oportunidade, centrando atenções “em acelerar o ritmo de inovação” para gerar novos conceitos e sabores.
Regressamos ao professor Jorge Oliveira para sintetizar o exercício de inovar. “Nem todas as ideias resultam em produtos. Nem todos os produtos alcançam sucesso”. E prosseguimos com outro tipo de inovação, associada à sustentabilidade, defendido por António Pires de Lima. O presidente executivo da Unicer foi claro: “Há uma preocupação real com o futuro. Existe a consciência de que este mundo tem recursos finitos”. Na empresa que dirige, a aproximação à sustentabilidade assenta, por isso, em três pilares: económica, social e ambiental. Com resultados práticos no processo de fabrico. Apesar de um aumento da produção em 10% registaram-se, de 2007 para 2009, reduções de 28% em emissões de CO2, de 18% em consumo de energia, de 10% de água consumida.
Diminuições que que não devem ser confundidas com uma produção totalmente “limpa”, salienta Mira Amaral. “É um erro técnico dizer que há tecnologias limpas. Não há. Há é umas mais limpas que outras”. Na definição do gestor do Banco BIC, a longo prazo, o desenvolvimento sustentável será fruto da evolução tecnológica que gerará processos mais limpos e eficientes, permitindo compatibilizar a produtividade/competitividade com o ambiente.

O destino nas próprias mãos
Na sessão de abertura do congresso, o presidente da FIMA, Jorge Henriques, enuncia variados entraves sentidos pelas empresas da indústria agro-alimentar, como as burocracias necessárias para a introdução de um novo produto no mercado. Precisamente o tema abordado por Catarina Duarte, investigadora IBET – Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica, com especial relevo para os produtos funcionais. Neste campo, segundo a cientista, “é necessária uma maturação da indústria”, de forma a estar mais consciente do tipo de estudos a apresentar para sustentar as alegações. “O princípio activo responsável pela alegação tem de estar presente no alimento, e em quantidades suficientes para uma resposta efectiva. Tudo tem de ter fundamento científico, como análises e testes de bio-actividade”. Regressa a necessidade das parcerias entre empresas e meio académico-científico, por forma a evitar entraves inesperados e cumprir os requisitos fundamentar da regulamentação existente – Regulamento (CE) n.º 1924/2006 do Parlamento Europeu. Actualmente, os lacticínios lideram a inserção de novos produtos funcionais no mercado, seguindo-se no ranking os alimentos para animais e as bebidas. As alegações mais utilizadas passam pela funcionalidade digestiva, controle de peso e redução de gordura.
Nas pastas entregues aos congressistas sobejavam exemplos de produtos dirigidos ao novo consumidor. Sopas de baixo teor calórico e chás sem calorias a pensar na manutenção da linha. Água contra a retenção de líquidos, leite enriquecido com fibras para ajudar a regularidade intestinal. Pedro Queiroz alarga a discussão para o novo desafio de marketing emergente. Se no passado era a marca que dominava a fidelização do consumidor, agora no processo de escolha já entram em conta os rótulos nutricionais, a lista de ingredientes e as alegações. “Os alimentos funcionais têm um espaço próprio. Não são medicamentos. Esta distinção tem de ser clara”.
Mais clara não podia ser a intervenção de Francisco van Zeller na sessão de abertura. Sem deixar de citar todos os constrangimentos que as empresas encaram (desde a ineficiência dos Tribunais do Comércio e das acções executivas até à necessidade de melhor protecção de patentes), prefere realçar outra vertente da equação: a responsabilização da empresa pelo seu próprio destino.
Salientando que não vale a pena alimentar o sonho de que um novo Governo ou ministro venha alterar tudo, o presidente da CIP relembra que a grande fatia do sucesso cabe a cada empresa. “Não nos devemos eximir das nossas responsabilidades, que também são uma lista enorme”.
Desde logo acompanhar mercados para agir em vez de reagir. Depois adoptar novos processos (tecnológicos, administrativos, de gestão de pessoal). E avaliar riscos de crescimento que, se não forem medidos, podem levar as PMEs a afundarem-se.
Existe sintonia com Jorge Henriques na consideração de que a “excessiva” atomização da indústria agro-alimentar é um ponto fraco. Ainda por cima fundada, segundo Francisco van Zeller, na “pior razão de todas”: a de o dono da empresa querer ser só ele a mandar.
Desaproveitam-se assim as complementaridades existentes com outras empresas. E as possibilidades de ganhar dimensão necessária para a internacionalização. É preciso exportar pelo que o responsável da CIP exorta os empresários de PMEs a juntarem-se, a gerarem parcerias internacionais, a abrirem delegações além-fronteira. E, se for preciso, a contratarem gestores estrangeiros. “Não é vergonha nenhuma”.
Jesus Pérez, presidente da CIAA- Confederação das Indústrias Agro-Alimentares da UE, afina pelo mesmo diapasão. Após categorizar os mercados da Índia, China e Brasil como oportunidades, deixa o recado: “As empresas têm que encontrar o seu lugar no mundo”. De braço dado à inovação, claro está.

Inovar para crescer (ou sobreviver)
A Pato Real e a Queijo Saloio apresentaram casos práticos relacionados com inovação. Ernesto Morgado, presidente da Ernesto Morgado, defendeu que as PMEs e a inovação são “entidades interdependentes”. Na visão apresentada, as empresas de menor dimensão têm uma estrutura mais flexível e favorável à inovação. Além de que precisam dela para se diferenciarem, propiciando assim o aparecimento de conceitos “radicais”. A empresa familiar sedeada na indústria do arroz, sentiu a necessidade de mudar em 2005, face à agressividade das MDD e às mudanças nos estilos de vida do consumidor. O caminho passou por acrescentar valor a um produto básico. Criaram-se valores para a marca Pato Real tendo em conta o “bem estar e saúde do consumidor”. De dois produtos em 2006, a empresa passou para 20 em 2009, com a adição da linha Gourmet (refeições à base de arroz para preparar em 10 minutos) e da linha Minuto (refeições e acompanhamentos para preparar em 2 minutos). Os sinais vindos do mercado são suficientes para Ernesto Morgado concluir: “A inovação valeu a pena.”
No caso da Queijo Saloio, a directora de desenvolvimento Marisa Sanchez evidencia que o mercado do queijo em portugal (10,2 Kg por habitante / ano) revela um forte potencial, dada a distância que nos separa dos países com maior consumo anual – Grécia e França. Para optimizar esta oportunidade, a empresa sentiu a necessidade de adequar os produtos às novas tendências do consumo. O processo de desenvolvimento passa por várias fases (desde a concepção das ideias e definição de conceitos até ao estudo de viabilidade) e resulta numa média de dez novas referências introduzidas anualmente no mercado. Tudo porque a Queijo Saloio, que celebrou parcerias institucionais com universidades, vê a inovação como “um motor de crescimento da marca” que já atingiu “relevância no negócio”.
Palavras Chave: Produção